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04/03/2026 - 16h29 Artigos

A relação da saúde mental com a comunicação é mais profunda do que vemos no dia a dia

Para a consultora Ceci Seabra, a comunicação ainda é vista como área de apoio ao negócio, não estratégica


Por Cecília Seabra*

 

Tudo o que uma organização faz comunica. Uma decisão de gestão, ou a falta dela, uma política mal explicada, contratações, promoções, demissões. Tudo impacta. Tudo influencia. Tudo comunica. No entanto, a imensa maioria das corporações ainda posiciona a comunicação como área de apoio ao negócio, tratando comunicação como atividade ao redor da estratégia e que, portanto, é desdobrada a partir de diferentes motivações, sem o entendimento de que a marca é o rosto da estratégia do negócio. No debate atual sobre saúde mental, é crucial ir além da superfície.

 

O reconhecimento de que marcas são atores sociais é um dos pontos-chave. Suas ações, decisões e comportamentos impactam diretamente o funcionamento da sociedade. Não à toa, em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social, divulgados em janeiro passado. No entanto, muitas empresas ainda não se veem sob essa ótica, mantendo comportamentos organizacionais moldados por uma lógica que resulta em perdas de eficiência em todas as frentes, como bem-estar, segurança psicológica e saúde mental, focos deste artigo.

 

Nesse contexto, a linguagem e o posicionamento não são meros adereços e, sim, consequências diretas de movimentos políticos, econômicos, tecnológicos e culturais. Do código de defesa do consumidor à atualização da NR-1, a dificuldade em responder adequadamente à pressão reside na complexidade que é mudar regras estruturais, colocando em xeque a credibilidade do resto da estratégia de negócios, diretamente proporcional à consistência e à coerência entre ações e impactos. Ou seja, às experiências que suas culturas proporcionam e que nada mais são do que a maneira como as pessoas se comportam sob a licença para operar em cargos, funções, papéis e responsabilidades, em todos os níveis hierárquicos.

 

É fundamental voltar a falar com e sobre gente: que trabalha, que consome, que é impactada positiva e negativamente. Gente que perde o sono porque não sabe se o emprego estará lá amanhã ou que sente segurança e respeito ao receber informações claras em momentos de crise. Gente que pode se sentir pressionada por campanhas que reforçam padrões inalcançáveis, ou fortalecida por narrativas que dialogam com diferentes realidades. Reconhecer essa responsabilidade é o ponto de partida para que a comunicação seja prática de cuidado. Se as decisões de gestão são tomadas sem a compreensão de que tudo comunica, a marca inevitavelmente falhará em sua performance social e, consequentemente, de negócio e legado.

 

A verdadeira potência se manifesta quando o foco migra do "talk" para o "walk", com o resgate das relações humanas. Campanhas de conscientização sobre saúde mental, mesmo aquelas que ganham maior visibilidade em determinados períodos, nos lembram dessa importância, mas o desafio vai além, ele está no cotidiano: resgatar o diálogo em uma sociedade que desaprendeu a conversar a partir das diferenças, compreender que comunicação não é acessório, é cabeça e coração. Porque, ao fim, não há mensagem mais poderosa do que o comportamento de uma organização e não há responsabilidade maior do que lembrar, todos os dias, que sempre estamos falando de gente e dos ambientes onde coexistem.

 

*Cecília Seabra é consultora, conselheira consultiva, docente, pesquisadora, palestrante e LinkedIn Top Voice

 

 

Foto: Divulgação

 

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