Imagem da matéria Ergonomia mental: o futuro do trabalho sustentável
18/11/2025 - 10h00 Artigos

Ergonomia mental: o futuro do trabalho sustentável


Por André Fusco
O RH vive um momento decisivo. Nunca se falou tanto sobre saúde mental no trabalho e nunca se exigiu tanto um posicionamento proativo em termos de cuidado com as pessoas. Afinal, o Brasil atingiu o maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em pelo menos uma década, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Além disso, o próximo ano promete um grande avanço com a vigência da obrigatoriedade da avaliação e gestão dos riscos psicossociais nas empresas por meio da atualização da NR-1.
 
As empresas avançaram em programas de bem-estar, seja em incentivo à prática de exercícios, mindfulness, apoio psicológico e campanhas de autocuidado. São conquistas relevantes, mas que precisam ser ampliadas para enfrentar a raiz da crise de saúde mental. 
 
O paralelo com a LER/DORT
A história da LER/DORT ajuda a entender esse ciclo. Primeiro, houve resistência em reconhecer o problema. Depois veio a inclusão dessa condição no rol de doenças reconhecidas, o que obrigou as empresas a adotarem medidas concretas, inicialmente com a implementação da ginástica laboral (ainda focando nos doentes) e finalmente a implementação da ergonomia osteomuscular com mudanças estruturais nos postos de trabalho.
 
Hoje estamos em estágio semelhante com a saúde mental. A síndrome de burnout, reconhecida pela OMS como doença ocupacional, tornou-se símbolo dessa nova etapa. Se o burnout é o “LER/DORT da cabeça”, precisamos de um olhar mais amplo que vá além das soluções individuais de autocuidado. É nesse ponto que surge a ergonomia mental.
 
Esse conceito tem origem nos estudos de Christophe Dejours, que integrou a psicanálise com a ergonomia da atividade para desenvolver a psicodinâmica do trabalho. enquanto a ergonomia osteomuscular se dedica ao corpo, a ergonomia mental tem como objeto o aparelho psíquico. Isso significa olhar para metas, sistemas de avaliação, formas de liderança, divisão de tarefas e relações de poder que vão além do setor de RH, mas que moldam o dia a dia e impactam diretamente a motivação, o engajamento e a saúde emocional dos profissionais.
 
O que adoece no trabalho não é o sofrimento em si, mas o sofrimento sem sentido. O que dá sentido é perceber o valor do que se entrega e a possibilidade de evolução pessoal. E tudo isso depende das regras que organizam o trabalho.
 
A proposta é clara: identificar o que, no trabalho, gera saúde e pertencimento e o que gera sofrimento sem propósito, para então redesenhar regras e práticas que sejam:
 
Saudáveis, ao reduzir riscos psicossociais;
Realizadoras, ao favorecer engajamento e propósito;
Sustentáveis, ao equilibrar resultados com cuidado às pessoas.
 
Em vez de um sistema de avaliação de qualidade que ignora a subjetividade das pessoas e apenas pune, estimulando a competitividade, por que não transformá-lo em um mecanismo de reconhecimento individual dos acertos e coletivizar as metas? Esse foi um exemplo que desenvolvi em uma empresa do setor financeiro e que resultou em mais produtividade, estímulo à colaboração, apoio entre colegas e um ambiente de trabalho mais humano. Isso é Ergonomia Mental na prática: melhorando clima, engajamento, produtividade e diminuindo gastos com sinistralidade, litígio e absenteísmo.
 
O papel do RH e da liderança
O desafio é que o RH sozinho não consegue avançar. Para além do conhecimento técnico, a implementação da ergonomia mental deve envolver várias áreas com o apoio da liderança e garantir autonomia para que profissionais especializados revisem processos em toda a cadeia produtiva. 
 
Um bom caminho é iniciar com projetos-piloto em áreas específicas, revisando processos como feedback, avaliação de desempenho, PDI e modelos de remuneração. A participação dos trabalhadores também é essencial. É na escuta ativa de suas vivências, inclusive em contradições e afetos, que se revelam as causas estruturais do sofrimento.
 
Essas análises qualitativas trazem resultados estratégicos e, ao incluir referências internas, fortalecem a adesão de todos e favorecem a participação da liderança ao reduzirem resistências. 
 
Com isso, também há uma virada de chave na mentalidade: não se trata de cuidar da saúde mental sem prejudicar os negócios. Cuidar da saúde mental é um excelente negócio. É investir em sustentabilidade humana, condição essencial para resultados consistentes e de longo prazo.
 
Quando essa lógica se alinha, todos ganham: trabalhadores, gestores e empresas. É um ciclo virtuoso.
 
A oportunidade da NR-1 para o futuro do trabalho
Nesse contexto, a nova NR-1 não deve ser encarada como burocracia, mas como oportunidade de transformação.
 
Se a ergonomia osteomuscular já nos ensinou que adaptar o trabalho ao corpo gera ganhos duradouros, agora é hora de aplicar o mesmo raciocínio à saúde mental. O futuro do trabalho deve passar por essa transição para garantir resultados sustentáveis.
 
André Fusco é médico-psicanalista, especialista em Ergonomia Mental e consultor em saúde mental no trabalho

Últimas notícias

Imagem da matéria Botsitting expõe o custo oculto da automação no Digital Workplace
Botsitting expõe o custo oculto da automação no Digital Workplace
Artigos - 21/08/2026 - 10h40
Sem a devida atenção, a experiência digital do colaborador exige mais esforço que a implementação da tecnologia
Ver MAIS
Imagem da matéria Líderes avançam no uso de IA, mas empresas ainda ficam para trás em capacitação e governança
Líderes avançam no uso de IA, mas empresas ainda ficam para trás em capacitação e governança
Liderança - 21/08/2026 - 09h50
Levantamento do Talenses Group mostra que 62% aprenderam a usar a tecnologia por conta própria
Ver MAIS
Imagem da matéria Trabalhar doente é rotina para mais de 70% dos trabalhadores e pode prolongar a recuperação
Trabalhar doente é rotina para mais de 70% dos trabalhadores e pode prolongar a recuperação
Comportamento - 20/08/2026 - 12h38
Pesquisa da consultoria Heach mostra que 71,7% tiveram piora da saúde ou demoraram mais para se recuperar
Ver MAIS
Imagem da matéria Como a IA está transformando a experiência do colaborador?
Como a IA está transformando a experiência do colaborador?
Publieditorial - 20/08/2026 - 11h12
Diretor de RH da Medtronic conta como a área une tecnologia e humanidade na interação com o colaborador
Ver MAIS

Notícias mais lidas

Imagem da matéria Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Aramis lança ferramenta própria de IA para atração e seleção de talentos
Recrutamento & Seleção - 26/02/2026 - 10h59
Chamada de A.R.A - Agente Robótica Aramis, solução fortalece a estratégia fashion tech da companhia
Ver MAIS
Imagem da matéria O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
O que o esporte ensina sobre liderança no mercado financeiro
Artigos - 27/04/2026 - 12h27
CEO do Andbank conta como a rotina de ciclismo, triathlons e maratonas contribui no seu desempenho como líder
Ver MAIS
Imagem da matéria Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Maternidade desenvolve habilidades que estão em alta nas empresas
Diversidade & Inclusão - 07/05/2026 - 10h43
Mas, ao se tornarem mães, mulheres ainda enfrentam dificuldades para manter o emprego, diz especialista
Ver MAIS
Imagem da matéria Magalu lança primeiro programa de trainee em IA do Brasil
Magalu lança primeiro programa de trainee em IA do Brasil
Tendências - 28/08/2025 - 17h46
Iniciativa está relacionada ao novo ciclo da companhia, focado na consolidação do IA Commerce
Ver MAIS
 Teste GRÁTIS por 7 dias