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06/10/2025 - 12h54 Artigos

O futuro da liderança em tempos de crises silenciosas

Força de trabalho esgotada demanda nova visão sobre performance, diz Clarrisa Medeiros, nossa colunista


 

Por Clarissa Medeiros*

 

O mundo corporativo vive uma contradição alarmante: nunca se falou tanto em inovação, produtividade e resultados e, ao mesmo tempo, nunca tivemos índices tão elevados de adoecimento relacionado ao trabalho. Hoje, 67% dos trabalhadores brasileiros afirmam sofrer os efeitos negativos do estresse. Esse número não representa apenas desconforto pontual; ele indica uma pressão constante que mina a vitalidade de dois em cada três profissionais.

 

Nos últimos dois anos, os afastamentos por saúde mental cresceram 134%, alcançando quase meio milhão de licenças médicas somente em 2024. Ansiedade e depressão estão entre os principais motivos, configurando a maior onda de afastamentos da última década. Ou seja, é uma crise silenciosa: não explode de uma só vez, mas vai corroendo a base das organizações dia após dia, até comprometer produtividade, engajamento e confiança.

 

O RETRATO DE UMA FORÇA ESGOTADA

Quando observamos o dia a dia, o cenário fica ainda mais claro. Quase metade dos profissionais relatou ter sentido estresse no dia anterior a uma pesquisa global. Um em cada quatro trabalhadores diz conviver com a tristeza diariamente. E a autodeclaração de ansiedade atinge 45% da população, especialmente entre mulheres e jovens.

 

Esses dados revelam que não se trata de casos isolados ou de fragilidades individuais. O que temos é um sistema de trabalho que opera em desgaste permanente, drenando energia mental, emocional e até criativa.

O custo oculto dessa dinâmica aparece nas decisões reativas, no enfraquecimento das relações e na perda de clareza sobre o que realmente importa.

 

AS RAÍZES DA EXAUSTÃO

► A profundidade desse cenário está em uma lógica de performance imediatista e desumanizada.

 

► A corrida por resultados rápidos gera ambientes baseados na pressão constante e na cultura da exaustão.

 

► O tempo para recuperação, reflexão e autocuidado é frequentemente visto como improdutivo.

 

► Mulheres e jovens — os grupos mais afetados por ansiedade e depressão — sofrem ainda mais em estruturas de poder pouco inclusivas e em modelos de liderança que negligenciam a dimensão humana.

 

A equação é clara: sem saúde não há performance e sem performance sustentável, o resultado não se mantém no longo prazo.

 

A VIRADA NECESSÁRIA

Diante dessa realidade, não basta tratar sintomas. É preciso reconfigurar a forma como entendemos o que é performar.

 

A Performance Sustentável surge como um princípio estratégico, não como um benefício extra. Ela coloca a preservação da energia, da clareza e da vitalidade no centro da gestão.

 

Uma liderança humanizada precisa enxergar que:

 

► Pausas e ciclos de recuperação não são luxo, mas mecanismos de produtividade real.

 

► A confiança é mais eficaz do que o controle excessivo para gerar engajamento

 

► Saúde mental deve ser reconhecida como ativo estratégico, e não custo.

 

► Diversidade e inclusão fortalecem a resiliência das equipes, ampliando a capacidade de inovação.

 

PRÁTICAS PARA SUSTENTAR ENERGIA E RESULTADOS

A transformação começa em escolhas simples, mas consistentes.

 

Gestão do tempo consciente: respeitar pausas, encerrar ciclos e priorizar o que tem significado.

 

Educação emocional: capacitar líderes a lidar com anseios próprios e da equipe, reduzindo reatividade e ampliando clareza.

 

Construção de confiança: cultivar relações onde vulnerabilidades possam ser compartilhadas sem medo.

 

Energia como métrica: avaliar não apenas horas entregues, mas a qualidade e vitalidade aplicadas em cada entrega.

 

Essas práticas, quando sustentadas pela liderança, criam ambientes que não apenas produzem mais, mas produzem melhor — com pessoas inteiras, presentes e conectadas ao propósito do trabalho.

 

UMA TRANSIÇÃO INEVITÁVEL

Estamos diante de um ponto de inflexão: ou as organizações integram a dimensão humana em sua estratégia, ou pagarão o preço em turnover, queda de inovação e colapso da confiança.

 

A Performance Sustentável não é uma utopia: é a resposta necessária para transformar a crise silenciosa do trabalho em uma oportunidade de regeneração.

O futuro da liderança será escrito não por aqueles que se exaurem na maratona interminável, mas por quem aprende a sustentar energia e vitalidade para gerar impacto real — hoje e sempre.

 

 

*Clarissa Medeiros é mentora de lideranças, palestrante, sócia-fundadora da Clarity Global e colunista do portal Gestão RH

 

Dados e fontes: Relatório People at Work 2023: A Global Workforce View, do ADP Research Institute / Ministério Público do Trabalho (MPT) e Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) / Ministério da Previdência Social / Organização Mundial da Saúde (OMS) / Pesquisa Ipsos – atrelada ao calendário oficial de ações do Ministério da Saúde / Relatório “State of the global workplace“ divulgado pela Gallup

 

 

Foto: Lucy Hallak

 

 

 

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