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02/04/2025 - 11h01 Artigos

Da resiliência à antifragilidade: o novo paradigma empresarial

Mais que sobreviver, é uma questão de prosperar em meio ao caos, comenta Iván Pino, da LLYC


 

Por Iván Pino*

 

 

Em um mundo em que a única constante é a mudança, as empresas já não se podem dar ao luxo de serem apenas resilientes. A resiliência permitiu-nos resistir às crises, mas a antifragilidade permite-nos crescer com elas. Num ambiente de "peri-risco", onde as crises não são apenas constantes, mas simultâneas e cada vez mais imprevisíveis, a capacidade de antecipar e transformar a incerteza em vantagem tornou-se o verdadeiro diferencial competitivo.

 

A maioria das organizações ainda funcionam segundo um modelo reativo. Seis em cada dez empresas esperam que a crise lhes bata à porta para atuar. Implementam protocolos de comunicação, preparam porta-vozes e concebem respostas que, em muitos casos, chegam demasiado tarde. Num mundo interligado e volátil, essa estratégia já não é sustentável. A antifragilidade é a evolução natural da gestão empresarial: não se trata apenas de resistir ao impacto, mas de transformar o risco em oportunidade.

 

A resiliência ensinou-nos a sobreviver. A antifragilidade ensina-nos a prosperar no caos. Enquanto uma empresa resiliente recupera após um choque, uma empresa antifrágil cresce com cada desafio. A chave é a antecipação: ouvir ativamente as partes interessadas, identificar os primeiros sinais de risco e agir rapidamente. Não se trata de gerir crises, mas de as evitar ou, melhor ainda, de as transformar num trampolim para a inovação.

 

Um exemplo claro de antifragilidade é a Mattel e a Barbie. Durante anos, a marca foi criticada pela sua falta de diversidade. Em vez de resistir à mudança ou simplesmente responder às críticas com pequenos ajustes, transformaram o desafio numa vantagem competitiva. Reconfiguraram a sua estratégia, expandiram o seu portfólio e, com o lançamento do filme da Barbie, transformaram a sua marca num ícone cultural renovado. Este é o poder da antifragilidade: transformar uma ameaça em crescimento.

 

Não se pode ser antifrágil em tudo. Cada organização deve identificar as ameaças que mais afetam a sua sustentabilidade e concentrar-se nelas. Já não basta prevenir as crises, é necessário conceber estratégias para as aproveitar. Para tal, é essencial dispor de sistemas de avaliação de riscos transversais a toda a organização. As empresas devem deixar de considerar as soft skills como competências secundárias. No contexto atual, o pensamento crítico, a negociação e a inteligência emocional são ferramentas essenciais para a tomada de decisões estratégicas. Em vez de esperar que as mudanças ocorram, as empresas devem conceber múltiplos cenários e preparar-se para cada um deles.

 

Não se trata de prever o futuro, mas de estar preparado para qualquer resultado possível. A empresa deve funcionar como um sistema de escuta ativa. As expectativas dos clientes, dos trabalhadores e dos investidores devem traduzir-se em estratégias concretas e ágeis. As empresas que construíram a sua identidade em torno de determinados valores devem assumir que existem expectativas em relação a elas. Alterar a sua posição em função do contexto político ou social pode levar a uma perda de confiança difícil de recuperar. Num mundo em que a credibilidade e a confiança são ativos fundamentais, a antifragilidade não é apenas uma vantagem competitiva, mas uma necessidade para a sobrevivência das empresas.

 

As empresas mais ágeis estão se afastando das estruturas rígidas e adotando modelos de liderança baseados na colaboração e na adaptabilidade. Para os gestores, o desafio não é pequeno: transmitir essa mentalidade a toda a organização implica uma profunda mudança cultural. A chave é alargar os sistemas de escuta, analisar as tendências e utilizar ferramentas como a inteligência artificial para tomar decisões informadas.

 

O futuro pertence a aqueles que sabem ler a mudança antes de ela acontecer. As empresas que adotarem a antifragilidade não só resistiram ao ataque do ambiente, como encontraram na incerteza o seu melhor aliado para o crescimento. Aquelas que continuam a esperar pela chegada da crise para reagir serão simplesmente deixadas para trás.

 

 

*Iván Pino é sócio e diretor geral de Assuntos Corporativos Latam da LLYC

 

 

 

Foto: Divulgação/LLYC
 

 

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