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14/10/2024 - 14h51 Artigos

E se o amanhã não vier?

Marcelo Madarász salienta que é preciso viver o hoje como um milagre que não será repetido


 

 

Por Marcelo Madarász*

 

 

Em tempos de inteligência artificial, estamos todos, de uma forma ou de outra, inseridos em um ambiente de volatilidade e exigências cada vez maiores, sejam elas externas ou as que nós próprios criamos. Quando somos líderes, esse quadro se agrava um pouco, pois de nós muito é esperado. Há uma série de novas competências que se somam à lista das tradicionais. Não vamos falar destas, nem das que serão exigidas amanhã por conta das novas tecnologias, uma vez que, por exemplo, quando robôs são lançados com possibilidades de execução de tarefas que até então eram nossas – e muitas delas bastante chatas, outras nem tanto –, precisaremos apender a navegar nesse novo mundo. Entretanto, como falei, não é desse novo conjunto de competências que falarei, mas daquelas que já são nossas velhas conhecidas, ou pelo menos deveriam ser, como, por exemplo, a resiliência.

 

No mundo dinâmico que estamos, alguns autores já sinalizam que mais importante que a resiliência seria a plasticidade. Sem entrarmos nos rigores conceituais, vamos tentar tornar as coisas mais simples com o objetivo de não agravarmos a tensão pelos elementos desconhecidos.

 

Imagine uma situação tão simples e banal quanto esta que vou relatar: 12 de outubro, Dia das Crianças e dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Um sábado de outubro, Brasil pós primeiro turno das eleições, vésperas do segundo turno, Estados Unidos em ritmo alucinado de eleições que se aproximam e o mundo em sua velocidade vertiginosa nos brindando com todos os tipos de discussões, polaridades, posicionamentos radicais muitas vezes alimentados por questões ideológicas, alguns sequestros temáticos, muitas incertezas.

 

Há uma beligerância no ar e muitas das verdades nas quais acreditávamos até ontem, não sabemos mais se continuam sendo verdades ou não. Alguns filmes antigos deixavam muito claro quem eram os mocinhos e quem eram os bandidos. Filmes atuais nos mergulham em dúvidas e, muitas vezes, as reviravoltas da história nos confundem, nos fazem pensar e refletir que o mocinho pode ser bandido, ou vice-versa, ou ambos têm muito um do outro. Luz e sombra se confundem e, nesse sentido, aparece uma competência cada vez mais importante: a capacidade de leitura de cenários e, portanto, ampliar visão, aprofundar, enxergar além do óbvio, não se deixar enganar por conclusões precipitadas.

 

O que quer dizer o título deste artigo, emprestado de uma música antiga e muito conhecida? E se aquilo que temos como certo, não acontecer?

 

No último sábado, em São Paulo, muitos bairros amanheceram sem energia elétrica por conta de forte tempestade do dia anterior. Acordamos e tudo aquilo que tínhamos como certo não necessariamente é tão certo assim. Imaginei que pudesse acordar e trabalhar para resolver algumas pendências atrasadas ou até adiantar algo da semana vindoura, pensei em tomar um bom banho quente e tantas outras coisas, mas meu prédio ficou sem energia elétrica. Este texto não é sobre falta de energia elétrica. É sobre que acontece com você, quando algo que você dava como certo deixa de ser.

 

Como você reage quando o inesperado acontece? E se o seu emprego, do qual você se queixa tanto, deixar de ser seu por uma decisão de reestruturação da equipe ou qualquer outro motivo? E se alguma questão física lhe acontecer e algo que você tem como garantido deixar de existir? E se alguém que tentou falar com você ou te encontrar, e por vários motivos você postergou, simplesmente partir sem que houvesse o último abraço? E se o amanhã não vier?

 

O objetivo deste artigo é simplesmente trazer um alerta para a necessidade de viver o hoje como um milagre que não será repetido. Viver o aqui e agora, com o compromisso de viver plenamente a experiência completa. Como sabiamente nos lembrou o Lama Gangchen Rinpoche: “Vejo como os animais aproveitam tanto as coisas aqui porque estão tranquilos. Nós devemos fazer o mesmo. Nós temos que olhar a nossa vida também assim. Podemos fazer muitas coisas, mas se não as fizermos com prazer, o que quer que façamos trará sempre o mesmo sofrimento. Mas, se começarmos a pôr prazer e gosto naquilo que fazemos, já teremos uma mudança naquele mesmo instante. Até mesmo quando estamos sofrendo, podemos entender a dor e aprender com ela. Quando nos dispomos a entender a dor, sentimos prazer só de perceber: Que bom que estou aprendendo isso.” (do livro Viver bem e morrer bem – Agora e sempre, de Bel César).

 

Bom aprendizado para todos nós!

 

 

 

*Marcelo Madarász é diretor de RH Latam da Parker Hannifin

 

 

Foto: Marcos Suguio

 

 

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