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08/04/2024 - 07h07 Artigos

Por que estamos tão cansados?

Para a psicanalista Rode Ziembick, a explicação está na sociedade de desempenho, sinônimo de autoexploração


 

 

Por Rode Ziembick*

 

 

1 - Exaustão emocional

2 - Ansiedade

3 - Sintomas depressivos

4 - Irritabilidade

5 - Dificuldade de concentração e memória

6 - Insônia

 

Esses são alguns dos sintomas do burnout.

 

O burnout é a consequência patológica da autoexploração. Hoje, não vivemos mais em uma sociedade disciplinar, onde os sujeitos são reprimidos e obedientes, seguindo regras e padrões rígidos. Hoje, vivemos na sociedade do desempenho, onde somos senhores de nós mesmos, onde nada é impossível, basta você se esforçar.

 

No lugar de proibições, mandamentos ou leis da sociedade disciplinar, entram projetos, iniciativas e motivação na sociedade do desempenho. A exploração não é externa, mas interna. O excesso de trabalho e desempenho intensifica a autoexploração, que é muito mais eficiente que a exploração do outro, pois vem acompanhada da sensação de uma pseudoliberdade. O explorador se torna, ao mesmo tempo, o explorado.

 

O sujeito do desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. Uma guerra internalizada para se superar, sempre alcançar melhores resultados. Quando não é possível, esse sujeito entra em processo de autodesvalorização, autoagressão e autodestruição, ou de destruição do outro através do processo da inveja.

 

A sociedade do desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito do desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente. A pressão pelo alto desempenho tem causado burnout. Essa sociedade do desempenho que produz o caos psíquico é agressora e vítima ao mesmo tempo.

 

As relações no mundo do trabalho são extremamente complexas, pois envolvem interesses pessoais, profissionais e econômicos, todos banhados por extensa singularidade. Não bastasse a representação dos papéis corporativos para o desempenho das funções do trabalho. O sujeito do desempenho se desafia até ultrapassar todos os seus limites físicos e, principalmente, mentais para alcançar um ideal autoimposto.

 

O excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos. Esse homem admite com orgulho ser multitarefa, sem perceber que essa característica é puramente animal e não uma evolução ou talento adquirido. Os animais sempre foram multitarefa, pois na selva qualquer falta de atenção pode levá-los ao aniquilamento. O animal, enquanto come, protege sua cria, observa o parceiro(a) e vigia seu entorno. Na vida selvagem, o animal divide sua atenção em muitas tarefas, por isso não é capaz de aprofundamento, inovação ou criatividade. A contemplação e o ambiente seguro são absolutamente essenciais àqueles que querem ir além da mera repetição de tarefas. A inquietação não gera nada de novo, apenas reproduz e acelera o já existente.

 

Essa inquietação não se configura apenas na vida de vigília, mas invade também o sono. O sujeito que se autoexplora, não se permite desligar, repousar e sonhar. Afinal, trabalhe enquanto eles dormem! Esse é o comando para o atingimento do diferencial tão almejado.

 

O sono é imperativo para o bom desempenho. Que contrassenso querer desbancá-lo de sua função de reparação, justamente quando dele mais se necessita para atingir o sonhado alto desempenho no dia seguinte. Não é à toa que a insônia é um dos principais sintomas do burnout. Sintoma deste sujeito que não se autoriza a descansar.

 

É curioso observar que a sociedade da autoexploração é também do autoengano, que desvaloriza ou mesmo ignora seus recursos inatos: como a capacidade de contemplação, criatividade, solução de problemas complexos e todos os demais que os distingue dos outros animais, em busca de superpoderes que são na realidade armas de autodestruição contra a sua possibilidade de criar, inovar e desfrutar da vida e das relações.

 

Ser funcional, se manter acordado, constantemente em alerta, trabalhar até o esgotamento, acelerar e acelerar os levará a satisfação de seus desejos? Essa é uma pergunta fundamental para compreensão das expectativas da atualidade.

 

Como podemos transpor essa dinâmica de autoexploração? Como escapar do imperativo da elevação do desempenho, da aceleração desenfreada e dos sintomas do mundo contemporâneo?

 

A prática do diálogo interno, da análise do discurso pessoal, e a observação das repetições de comportamento são ferramentas seculares para construir indivíduos pensantes, reflexivos e conscientes de suas escolhas.

 

No entanto, não existem soluções simples. Um ponto de partida pode ser mergulhar no nosso mundo interno, desconhecido, que se tornou infamiliar quando nos afastamos de nós mesmos em busca de nos tornar super-humanos, inquebráveis. Essa grande aventura convoca coragem para explorar os escombros do inconsciente em busca da essência perdida. E, assim, dar alguma chance para o infamiliar se tornar novamente familiar através do resgate de nossas almas infartadas.

 

 

*Rode Ziembick é psicanalista clínica e especialista em Comportamento Organizacional

 

 

Foto: Divulgação

 

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