Quanto maior o domínio da IA no trabalho, maior a incidência de sintomas de burnout
Estudo da Wellhub aponta que o uso crescente da tecnologia está sobrecarregando colaboradores
Os profissionais que mais incorporaram a inteligência artificial à rotina de trabalho também estão entre os que relatam o maior aumento da carga de trabalho e do burnout no Brasil. É o que mostra a quinta edição do Panorama do Bem-Estar Corporativo do Wellhub, pesquisa online conduzida pela QuestionPro. O levantamento ouviu mais de 5 mil profissionais em dez países, em junho.
Para analisar como o avanço da tecnologia afeta os profissionais de diferentes maneiras, o estudo classificou os participantes em três grupos, considerando a frequência de uso da IA, a familiaridade com as ferramentas e sua integração à rotina de trabalho. Os Pioneiros em IA (41% dos pesquisados) utilizam a tecnologia como parte essencial de suas atividades e ajudam outras pessoas a fazer o mesmo. Já os Adeptos (32%) fazem uso frequente da IA, mas ainda não se sentem totalmente seguros para integrá-la ao trabalho. Por fim, os Iniciantes (26%) são profissionais que nunca utilizaram essas ferramentas ou tiveram apenas experiências pontuais, muitas vezes acompanhadas de ansiedade.
O paradoxo da produtividade
Os dados apontam para um novo desafio para as empresas: a transformação tecnológica não está apenas modificando a maneira de trabalhar. Os profissionais que estão na linha de frente desse processo têm ganhado eficiência, mas, ao mesmo tempo, estão assumindo novas responsabilidades e pressões.
Entre os brasileiros, 31% dos profissionais afirmam que o uso da tecnologia aumentou sua carga de trabalho, em vez de reduzi-la. Entre aqueles com maior domínio da IA, o percentual chega a 37%, contra 13% entre os que estão começando a utilizar a tecnologia.
Além disso, 82% dos mais experientes orientam colegas no uso das ferramentas, assumindo informalmente uma responsabilidade adicional às suas atividades. Nesse grupo, 23% relatam sintomas diários de burnout, mais que o dobro dos 11% registrados entre os iniciantes.
Preparação e liderança
Embora os mais experientes absorvam mais pressão, eles também relatam maior acesso a suporte e níveis mais altos de bem-estar. Entre os brasileiros, 77% dos que trabalham em empresas com uma política clara e bem comunicada sobre o uso de IA afirmam se sentir resilientes e capazes de se adaptar às mudanças, em comparação com 37% daqueles que sequer sabem se existe uma política em suas organizações.
A percepção de preparo também faz diferença. Entre os profissionais que se sentem preparados para trabalhar com a tecnologia, 87% afirmam se sentir resilientes e capazes de se adaptar ao ritmo das mudanças, ante 45% daqueles que não se sentem preparados.
Bem-estar na era da IA
A transformação do trabalho acontece em um contexto no qual o bem-estar já ocupa um papel importante na relação entre profissionais e empresas. No Brasil, a grande maioria dos colaboradores afirma que sairiam de uma empresa que não prioriza o bem-estar. Entre os Pioneiros, o percentual é de 73%, enquanto entre os Iniciantes chega a 51%.
Entre os Pioneiros, 75% afirmam que ter acesso a recursos de bem-estar ajuda a desempenhar melhor e a se adaptar a um ambiente de trabalho impulsionado pela tecnologia; entre os Iniciantes, o índice despenca para 17%.
"A inteligência artificial tem um potencial extraordinário, mas não podemos medir o sucesso dessa transformação apenas pela eficiência que ela gera. Precisamos olhar também para o impacto sobre as pessoas", diz Ricardo Guerra, líder do Wellhub no Brasil. Para ele, a tecnologia deve ampliar o potencial humano, não consumir ainda mais a energia das pessoas. “Esse é um desafio estratégico para CEOs e líderes de RH", complementa.
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