Onze anos para chegar ao lugar certo
Joana Moreira: na mudança de carreira, o empenho e os aprendizados para tornar RH uma área conectada ao negócio
Por Joana Moreira*
Havia um pilar bem na minha frente, na área financeira, com uma frase escrita: "A pessoa certa no lugar certo". Eu passava por ele todos os dias, até que um dia li aquilo e pensei: eu sou a pessoa certa, mas estou no lugar errado.
Eu já tinha 11 anos de carreira construída em comércio exterior, passando por indústrias como automotiva, aviação e mineração. Um caminho seguro, com trajetória conhecida pela frente. E a certeza incômoda de que minhas competências já não encontravam ali o melhor espaço de expressão.
Falei com meu gestor, pedi apoio para uma transição, e surgiu uma vaga em Recursos Humanos. Candidatei-me sem preencher todos os requisitos. Fui selecionada, e ouvi que não poderia entrar como sênior, porque havia profissionais com 13 anos de casa em posições plenas e eu não tinha conhecimento específico na área. Todo o repertório que eu tinha construído em uma década foi, ali, praticamente zerado.
Aceitei mesmo assim. Não por humildade, mas por cálculo: eu queria acesso às práticas, aos projetos, à informação e à experiência que só se adquire estando dentro. O mercado tranca esse acesso por tempo de casa, não por capacidade. Se o preço para atravessar a porta era descer um degrau, eu pagava, porque sabia que subiria três depois.
O que eu não previ foi o primeiro ano. Praticamente não dormi. Ouvi de pessoas próximas que, numa crise, eu seria uma das primeiras a ser desligada por ter acabado de chegar. Aquilo aumentou meu senso de urgência: fiz três formações em doze meses. Veio a pandemia, e eu viajava pelo país conduzindo processos regionais, estudando nos intervalos. A decisão de entrar foi coragem. O primeiro ano foi conduzido pelo medo.
Também precisei reconstruir minha autoridade. Trazer uma perspectiva diferente, por já ter vivido determinado problema em outra indústria, não bastava em palavras. Passei a conduzir projetos do início ao fim para demonstrar, na prática, aquilo que eu enxergava. Nesse período, desenhei a primeira estratégia de diversidade de cinco anos de uma empresa e respondi por um orçamento de aproximadamente dois milhões de reais em desenvolvimento organizacional.
Hoje entendo que tempo de casa e tempo de função não são sinônimos de profundidade de experiência. É possível ter 20 anos de experiência, e é possível repetir o mesmo ano vinte vezes. O que me realiza no RH é justamente perceber que o trabalho pode mudar concretamente a experiência das pessoas e, ao mesmo tempo, gerar valor para o negócio.
Em um projeto de diversidade, ouvimos as mulheres da operação e percebemos que não adiantava aumentar a contratação feminina se a infraestrutura não estivesse preparada para recebê-las. A partir dessa escuta, em cerca de dois meses, construímos 26 banheiros femininos. Pode parecer uma história sobre banheiros, mas nunca foi. Era a mensagem de que estávamos preparando aquele lugar para que elas pudessem estar ali. Existe uma diferença enorme entre dizer que pessoas importam e construir ambientes em que elas percebam que importam.
Olhando para os desafios de hoje, o maior deles é o RH deixar de conhecer apenas RH e passar a compreender profundamente o negócio: pisar a operação, acompanhar cliente, entender receita, produtividade e estratégia, antes de chegar com uma solução de pessoas.
Outro desafio é preservar o pensamento crítico em um ambiente inundado por metodologias, indicadores, benchmarks e, agora, inteligência artificial. Não existe nada mais ineficaz do que tornar extremamente eficiente aquilo que já perdeu o sentido, por isso continuo fazendo a pergunta que às vezes incomoda: por que fazemos isso assim?
Para o futuro, penso bastante em uma imagem que ouvi numa masterclass sobre inteligência artificial agêntica: um aspirador de pó entra para retirar; um andaime entra para permitir construir algo que, sem ele, não seria possível. Grande parte das organizações ainda olha a IA pela lógica do aspirador, perguntando que tarefa pode ser retirada. São perguntas legítimas, mas insuficientes. A pergunta que considero mais importante é como redesenharemos o trabalho, as carreiras e a autoridade que decidimos delegar a agentes, preservando sob julgamento humano aquilo que precisa continuar sendo humano.
Quero ajudar a construir um RH que conheça profundamente pessoas, mas também entenda de negócio, que pise a operação e antecipe as competências que a organização vai precisar amanhã. Um RH que transforma informação em decisão, potencial em oportunidade e acesso em responsabilidade. Porque a liderança amplia o nosso acesso, a informações, decisões, pessoas e oportunidades, e o tamanho da nossa responsabilidade deveria crescer na mesma proporção.
No fim, aqueles 11 anos não foram o tempo que levei para encontrar a carreira certa. Foi o repertório que me permitiu chegar ao RH sendo a profissional que eu precisava me tornar.
*Joana Moreira é executiva de RH com atuação regional na América Latina e integra a lista Top 50 Female Leaders Brazil 2026
Foto: Divulgação








