Revista Gestão RH - Edição 171
01/08/2026 - 10h00 Colunas
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A HIERARQUIA DO SER: O QUE O CURRÍCULO NÃO CONTA SOBRE O CARÁTER
Por Nuno Lopes Alves
Sempre acreditei que, para construir lideranças perenes, a técnica é apenas o ponto de partida. O que sustenta uma organização no longo prazo é a solidez dos princípios que guiam suas pessoas e o legado deixado em cada decisão. Vejo com frequência o mercado concentrado em competências funcionais e métricas de performance, enquanto a essência da liderança habita um território que o currículo raramente alcança. Para refletir sobre isso, acho útil recorrer a um manifesto que considero atemporal: a carta escrita em 1984 por Dee Hock, fundador e presidente emérito da Visa.
Hock não foi apenas o arquiteto de um sistema global de pagamentos. Foi também um pensador de liderança ao propor uma inversão corajosa da lógica corporativa convencional. Para ele, decisões sobre contratar, promover ou reconhecer alguém deveriam seguir uma hierarquia clara de seis atributos:
► integridade,
► motivação,
► capacidade,
► sabedoria,
► conhecimento
► e experiência.
A ordem dos fatores importa, nesse caso. E talvez nunca tenha sido tão atual.
Na prática, muitas organizações ainda leem essa lista de baixo para cima. O currículo entrega formação, repertório técnico e histórico profissional; elementos tangíveis, fáceis de medir e comparar. Mas liderança exige julgamentos mais profundos. Técnica sem ética, conhecimento sem discernimento e experiência sem propósito podem se transformar em riscos silenciosos para qualquer cultura organizacional.
Por isso, integridade ocupa o topo da lista. Sem um senso ético sólido, todas as demais competências perdem valor. A história corporativa está repleta de profissionais brilhantes que, desprovidos de princípios, comprometeram reputações, enfraqueceram culturas e colocaram resultados de curto prazo acima da sustentabilidade do negócio. Quando a ética é frágil, o talento deixa de servir ao coletivo.
Para mim, o papel número um do líder não é ser o detentor de todas as respostas, mas o guardião dos princípios que orientam as decisões. Liderar é fazer com que a forma como alcançamos nossas metas tenha o mesmo peso das entregas em si. É nos momentos de pressão, ambiguidade e velocidade que valores deixam de ser discurso e passam a ser prática.
Logo depois da integridade, Hock destaca outras características igualmente reveladoras: motivação, capacidade e sabedoria. Trata-se do propósito que nos impulsiona a avançar, da abertura para aprender e aplicar o aprendizado na prática, bem como da maturidade para decidir de forma equilibrada. Em um ambiente de transformação constante, essas qualidades tendem a diferenciar muito mais do que credenciais acumuladas ao longo da carreira.
Somente depois aparecem conhecimento técnico e experiência. Não porque sejam menores, mas porque são atributos mais fáceis de desenvolver, de certa forma mais acessíveis. Técnica pode ser ensinada. Experiência se constrói com tempo e exposição. Já caráter, discernimento e vontade genuína de contribuir dependem de escolhas diárias.
Essa lógica nos leva a outra distinção essencial presente na carta de Hock: a diferença entre cargo e valor pessoal. Títulos são circunstanciais. Cargos podem ser concedidos. Respeito verdadeiro não acompanha organogramas; ele é conquistado pela conduta cotidiana. Podemos respeitar institucionalmente uma posição, mas admiração, confiança e “followership” pertencem à esfera do comportamento.
Esse princípio é especialmente relevante para quem lidera pessoas. Desrespeitar quem ocupa posições consideradas de menor escopo não demonstra autoridade, mas fragilidade. Os melhores líderes que conheci tratavam todos com o mesmo senso de dignidade, sem distinção de crachá, da senioridade ou da proximidade com o poder.
Na minha jornada pela América Latina e Caribe, percebo que um dos maiores desafios da liderança não é preencher vagas, mas fazer bons julgamentos sobre pessoas. Muitas vezes nos deixamos encantar por quem sabe muito e ignoramos lacunas nos atributos essenciais. Hock era claro: jamais devemos promover alguém falho em integridade, motivação, capacidade ou sabedoria, independentemente de resultados imediatos.
Para os gestores que desejam deixar legados duradouros, o convite é simples e profundo: foquemos menos nos currículos e mais nos seres humanos. Competências podem ser ensinadas. Ferramentas podem ser atualizadas. Processos podem ser redesenhados. Mas caráter e propósito exigem escolha, consistência e exemplo.
No fim, inovação, crescimento e performance sustentável costumam ser consequências de culturas formadas por pessoas íntegras. As maiores realizações andam lado a lado com conduta correta.

Nuno Lopes Alves é presidente regional da Visa para América Latina e Caribe
Foto Nuno: Caio Guatelli
Foto abertura: Midjourney








