A 12° edição da The Future 100, pesquisa da agência VML que mapeia tendências globais do consumidor, colocou o desejo por conexão humana no centro de tudo. E quando o foco do mercado se volta para o impulso humano, a autenticidade e as experiências de alto impacto, as organizações sofrem um efeito espelho imediato, porque uma empresa não consegue entregar autenticidade para fora se o seu ambiente interno for artificial e engessado.
Para que marcas sustentem essa promessa, a cultura organizacional passará por três grandes transformações, e eu acredito que esse momento já esteja acontecendo há algum tempo:
1ª – Da experiência do cliente para a experiência do colaborador
Marcas só criam experiências imersivas e de alto impacto se as pessoas que trabalham nelas estiverem engajadas e inspiradas. O RH e os gestores começam a desenhar a jornada do colaborador com o mesmo cuidado que o Marketing desenha a jornada do cliente.
Acabam os processos burocráticos e frios, entram rituais internos que geram conexão real, orgulho e senso de propósito. Isso é algo óbvio e certamente a maior parte das empresas já trabalha; então, o que de fato muda? Teremos que personalizar alguns pontos da jornada. Cada pessoa é única e possui uma necessidade e um desejo específico.
2ª – A queda das máscaras corporativas (autenticidade interna)
Se a autenticidade é a moeda de troca com o consumidor, que anda cansado dos conteúdos prontos e similares feitos pelos agentes de IA, as organizações terão que abandonar o "teatro corporativo". Vão desabar os ambientes onde as pessoas fingem que está tudo bem e apenas repetem discursos prontos.
Por outro lado, ganhará força a cultura baseada em segurança psicológica, na qual o erro é encarado como aprendizado e a vulnerabilidade é vista como força, não como fraqueza; onde ninguém sabe tudo e a beleza do time está em como se complementa – as pessoas passam a olhar o resultado do negócio e não somente o seu quando veem valor no outro.
As empresas terão que alinhar o que postam no LinkedIn com o que realmente praticam no dia a dia, e isso está altamente conectado ao modelo de gestão das pessoas.
3º – Estruturas flexíveis para infinitas possibilidades
Para que o impulso humano floresça e desvende novas oportunidades, as pessoas precisam de espaço para criar. Estruturas hiper-hierárquicas e engessadas sufocam o potencial humano, nesse sentido, as organizações migrarão para modelos mais orgânicos e descentralizados, o “compartilhar para ganhar” começará a ter força. A gestão passará do controle de horas para a entrega de valor e autonomia. Os colaboradores deixarão de ser "robôs executores de processos" – até porque a IA é que vai fazer esse papel – e se tornarão solucionadores de problemas, trazendo sua experiência e sensibilidade para o centro das decisões. As decisões continuarão sendo humanas, e é nisso que devemos focar (como eu preparo quem decide).
Nesse contexto, a liderança assume um papel ainda mais relevante. Se a tecnologia tende a democratizar o acesso à informação e automatizar tarefas operacionais, o diferencial dos líderes estará menos no conhecimento técnico e mais na capacidade de gerar confiança, inspirar pessoas e promover conexões. A qualidade das relações passa a ser um indicador tão importante quanto os resultados alcançados.
Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de pertencimento. Em um cenário marcado por transformações rápidas e constantes, excesso de estímulos e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, as pessoas buscam espaços em que sejam reconhecidas em sua individualidade e sentir que fazem parte de algo significativo. Empresas que conseguirem construir esse senso de comunidade terão maior capacidade de atrair, desenvolver e reter talentos. Mais do que benefícios ou estruturas modernas, o que gera vínculo duradouro é a percepção de que existe coerência entre discurso, prática e relações humanas.
O que passará a ter valor então?
A autenticidade humana, que é intrinsicamente caótica. O ser humano não é linear, previsível ou puramente processual. Se a tendência de mercado exige "impulso humano e autenticidade", a cultura organizacional precisa aceitar a complexidade das pessoas. O diferencial estará na autoria de pensamentos, conectada a experiências vividas, novas ideias, ao que a pessoa enxerga através dos ambientes e das relações, aliada a tudo o que a tecnologia nos entrega pronto.
As tendências globais não mudam apenas o que vendemos ou como nos comunicamos, elas também redefinem as dinâmicas de sobrevivência corporativa.
Para as organizações acompanharem as transformações que já estão acontecendo, a área de RH precisa erguer-se como a guardiã do dinamismo e da relevância.
Atuar junto às pessoas, em plena transição, que costuma ser caótica, é um trabalho diário de simplificação de processos, de alinhamento de lideranças à cultura de execução e, acima de tudo, de manutenção do foco em gente. Afinal, as tendências apontam para o futuro, mas são as pessoas, no presente, que evitam o declínio e garantem a perenidade dos negócios.

Mariana Adensohn é diretora de Gente e Gestão da Loungerie






