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Revista Gestão RH - Edição 171
01/08/2026 - 10h00
Colunas

SEU TIME ESTÁ CAPACITADO DE FORMA ASSERTIVA PARA USAR IA?


Por Alexandra D’Azevedo Nunes

 

Sim, você já ouviu falar de inteligência artificial (IA) mais vezes do que consegue contar. Essa tecnologia virou um insistente buzzword corporativo que promete transformar tudo enquanto, na prática, boa parte dos times ainda não sabe o que fazer com ela no dia seguinte. E é exatamente aí que está o problema.

 

A fadiga do termo não pode se tornar desculpa para a inércia. Enquanto líderes debatem se a IA vai substituir pessoas ou não, o verdadeiro risco silencioso já está instalado nas organizações: times desinformados, ansiosos e sem repertório para experimentar. E esse é, antes de qualquer coisa, um problema de liderança, especialmente a de Recursos Humanos.

 

O consultor e pesquisador Josh Bersin, uma das vozes mais respeitadas em RH e desenvolvimento organizacional no mundo, defende uma lógica simples para acelerar a adoção de novas tecnologias nas empresas: comece por quem quer.

 

Em vez de tentar converter os céticos ou forçar uma adoção em massa, a estratégia mais eficaz é identificar as pessoas que já demonstram curiosidade genuína e investir nelas primeiro. Essas pessoas se tornam os champions: embaixadores internos que aprendem, experimentam, erram, ajustam e mostram para os colegas que é possível.

 

Esse modelo é especialmente relevante para IA, porque o tema ainda carrega muito ruído. Champions bem preparados conseguem separar o hype da aplicação prática, contextualizar para a realidade do negócio e criar um ambiente psicológico mais seguro para que outras pessoas também arrisquem. A transformação não começa em todos ao mesmo tempo, mas em poucos, até se expandir organicamente.

 

Para líderes de RH, isso muda completamente a lógica do treinamento corporativo tradicional. Não se trata de criar um curso obrigatório sobre IA para todos. Trata-se de mapear quem são os early adopters internos, estruturar uma jornada personalizada para eles e criar mecanismos para que o conhecimento se espalhe.

 

Existe uma armadilha muito comum entre líderes nesse momento: delegar o tema de IA para a área de tecnologia e não assumir sua parte de responsabilidade. Esse movimento é compreensível, afinal, a agenda já está sobrecarregada, mas é estrategicamente perigoso.

 

A IA não é mais um assunto de TI. É uma questão de estratégia, cultura, aprendizagem e gestão de pessoas. Líderes que não desenvolvem ao menos um nível básico de letramento nesse tema perdem rapidamente a capacidade de fazer boas perguntas, avaliar riscos, inspirar times e tomar decisões informadas.

 

Estar up to date não significa dominar algoritmos ou saber programar. Significa:

 

► Experimentar ativamente. Use ferramentas de IA no seu próprio trabalho. Resuma reuniões, gere rascunhos, análise dados, automatize tarefas repetitivas.

 

► Criar rotinas de atualização. Reserve tempo semanal para acompanhar fontes confiáveis sobre o tema.

 

► Conversar com quem está na prática. Os Champions do seu time provavelmente já sabem coisas que você ainda não sabe.

 

► Fazer as perguntas incômodas. Quais processos do meu time podem ser acelerados com IA? Onde estamos perdendo tempo em tarefas que poderiam ser automatizadas? O que minha equipe precisa aprender para não ficar para trás?

 

Para líderes de Recursos Humanos especificamente, a urgência é ainda maior. O RH está sendo convocado a redesenhar trilhas de aprendizagem, competências esperadas, modelos de avaliação de desempenho e até a própria proposta de valor da área.

 

Há uma conversa que está sendo evitada nas organizações: o impacto emocional e psicológico dessa transformação acelerada sobre as pessoas e sobre os próprios líderes.

 

A pressão por adaptação rápida, a necessidade de experimentação contínua e a sensação de que o que foi aprendido ontem já está desatualizado hoje geram um estado crônico de incerteza que, se não for reconhecido e gerenciado, se transforma em ansiedade, burnout e paralisia.

 

Líderes precisam cuidar de si mesmos antes de cuidar dos times. Algumas práticas que fazem diferença real. Para você, líder: reconheça que não saber tudo sobre IA é normal. O problema não é a ignorância, e sim a negação. Estabeleça limites saudáveis para o consumo de informação e busque espaços de troca com outros líderes que estejam navegando os mesmos desafios. Para o seu time: crie espaço para que as pessoas expressem inseguranças sem julgamento. Normalize o erro como parte do processo de aprendizagem com IA. Celebre tentativas, não apenas resultados. Não imponha um ritmo de adaptação que ignora a capacidade humana de processar mudança.

 

O maior erro que uma organização pode cometer nesse momento é tratar a transformação digital como um projeto de tecnologia e esquecer que ela é, antes de tudo, uma transformação humana.

 

A IA não vai embora. O termo pode cansar, mas o impacto é real e crescente. A pergunta que todo líder precisa responder com honestidade é: o meu time está sendo preparado para esse mundo, ou estamos esperando o momento certo que nunca chega?

 

A vantagem competitiva do futuro não será quem tem a melhor ferramenta de IA – será quem aprender mais rápido como usá-la bem.

 

Alexandra D’Azevedo Nunes é diretora de RH e Pessoas da Peers Consulting + Technology

 

Foto Alexandra: Bill Cardoso

Foto abertura: Midjourney

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