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Revista Gestão RH - Edição 170
27/03/2026 - 12h00
Colunas

O QUE MUDA QUANDO A LIDERANÇA ATRAVESSA FRONTEIRAS


Por Nuno Lopes Alves

Mudar de cargo é fácil de explicar no papel. Mas, na prática, cada nova função é também uma mudança de perspectiva, um convite a reaprender a liderar. Em posições de maior escopo, o desafio deixa de ser apenas tomar boas decisões e passa a ser enxergar o todo, conectar realidades diferentes e, sobretudo, inspirar pessoas que vivem e pensam de maneiras diversas.

 

Quando encerrei meu ciclo à frente da Visa do Brasil para assumir a presidência da companhia na América Latina e no Caribe, em outubro de 2025, percebi o quanto essa transição representava mais do que uma evolução profissional. Era, na verdade, um exercício de expansão de olhar. Depois de liderar operações no Brasil e em países da Região Andina, passei a lidar com um mosaico ainda mais complexo e fascinante de culturas, economias e contextos sociais. Em um mesmo voo, posso sair de um mercado altamente digitalizado para outro onde o dinheiro em espécie ainda tem papel significativo. Entender essas nuances é o primeiro passo para liderar com empatia e eficácia.

 

Liderar em escala regional é, antes de tudo, uma lição sobre o que nos une. Antes de pensar em estratégia, tecnologia ou resultados, é preciso entender pessoas. Aprendi que o verdadeiro papel de um líder não é centralizar decisões, mas construir pontes – entre culturas, perspectivas e tempos diferentes. À medida que a região se transforma, também me transformo com ela, buscando ser um ponto de conexão entre o local e o global, entre a tradição e o futuro.

 

A amplitude desse novo papel me faz refletir sobre o que significa, de fato, liderar em contextos multiculturais. Cada país carrega sua própria história, ritmo e prioridades. Há economias altamente conectadas e outras onde a inclusão financeira ainda está começando. Por trás dos números, há pessoas com aspirações, crenças e estilos de trabalho distintos, e é nessa pluralidade que mora a riqueza da América Latina e Caribe.

 

Com o tempo, aprendi que liderar diferentes culturas é um exercício constante de escuta e desapego. É preciso cultivar a dissidência de ideias: ter a humildade de deixar de lado a ideia de que já se sabe tudo e a curiosidade genuína de aprender com quem está no terreno, em cada mercado. Isso vale tanto para decisões estratégicas quanto para gestos cotidianos. Uma conversa informal com um parceiro em Buenos Aires pode revelar tanto quanto uma reunião formal em São Paulo. Um diálogo com um pequeno comerciante na Cidade do México pode ensinar mais sobre inovação do que qualquer painel tecnológico.

 

A transição para uma função regional também me fez repensar a importância da confiança e da colaboração como motores de crescimento. Liderar à distância exige mais clareza de propósito, mais transparência na comunicação e, principalmente, mais autonomia para os times. Um líder não precisa estar presente em todas as decisões, mas precisa estar presente na cultura. Quando há um propósito claro e compartilhado, as decisões se alinham naturalmente.

 

O Brasil, minha terra natal, foi um grande laboratório de integração regional. É um mercado sofisticado, competitivo e, ao mesmo tempo, colaborativo. Um exemplo do poder da parceria entre bancos, fintechs e empresas de tecnologia para impulsionar o ecossistema de pagamentos. Esse espírito de cooperação é uma referência para o restante da América Latina e Caribe: uma região que cresce quando compartilha aprendizados e soluções, e não quando compete internamente.

 

Liderar uma região tão diversa é como escalar uma montanha com uma equipe multidisciplinar. Cada pessoa carrega um tipo de equipamento, uma bagagem distinta e um ritmo próprio. O papel do líder é garantir que todos se mantenham na mesma trilha, que o grupo avance junto e que cada um se sinta parte da conquista.

 

É justamente dessa pluralidade que nasce a inovação. Times diversos olham para o mesmo desafio com lentes diferentes e, quando há segurança psicológica para que cada voz se manifeste, as ideias florescem. Liderar na América Latina e Caribe é ter o privilégio de aprender diariamente com essa mistura de sotaques, pensamentos e realidades, e de ver, a cada projeto, a criatividade e a resiliência que caracterizam nossa região.

 

Olho para o futuro com entusiasmo. A América Latina e o Caribe vivem uma revolução digital sem precedentes. Da adoção dos pagamentos em tempo real à popularização das carteiras digitais e das stablecoins, vemos uma região que não apenas acompanha o mundo, mas lidera transformações. O potencial humano, a força empreendedora e a capacidade de adaptação que encontramos por aqui me fazem acreditar que os próximos anos serão de crescimento sustentado, impulsionado por inovação, inclusão e propósito.

 

Liderar essa região é um privilégio e uma responsabilidade. Mais do que conectar países, trata-se de conectar pessoas e acreditar que, apesar das diferenças, há um valor comum que nos une: o desejo de prosperar.

 

Nuno Lopes Alves é presidente regional da Visa para América Latina e Caribe
 

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