Imagem da matéria LIDERANÇA EM UMA CULTURA DE CUIDADO E PERFORMANCE
Revista Gestão RH - Edição 170
27/03/2026 - 12h00
CEO em Foco

LIDERANÇA EM UMA CULTURA DE CUIDADO E PERFORMANCE


Por Thaís Gebrim

“Não buscamos perfeição, buscamos consistência.” Para Ana Bógus, resultados sustentáveis nascem quando cuidado com as pessoas e performance caminham juntos. Primeira mulher a presidir a Beiersdorf no Brasil, a executiva defende uma liderança que conecta cultura, desenvolvimento humano e estratégia de negócios

 

Em 2024, seu nome figurou entre os 10 CEOs Mais Admirados, na premiação concedida pela Gestão RH. Já em 2025, foi o grande destaque, recebendo o título de CEO do Ano – Categoria Feminino, ao lado do Ciro Possobom, CEO da Volkswagen, na categoria Masculino.

Referência em liderança feminina, Ana Bógus iniciou a carreira no setor bancário, migrou para o Marketing da Nestlé e foi para a Kimberly-Clark, onde, entre outros desafios, dirigiu o RH e experimentou o exercício da liderança internacional, como general manager no Chile. Também passou pela Rappi e presidiu a Havaianas no Brasil e na América Latina, antes de liderar a Beiersdorf, dona das marcas Nivea e Eucerin.

 

Ser a primeira mulher a assumir a presidência da companhia no Brasil não é apenas um marco na trajetória profissional da executiva. É também a expressão de sua forma de liderar. Ana defende que performance sustentável nasce de culturas organizacionais fortes, lideranças conscientes e ambientes em que as pessoas possam, de fato, florescer. À frente da Beiersdorf desde o início de 2024, ela tem buscado imprimir justamente a visão de que cuidar de gente e gerar resultados são dimensões inseparáveis da mesma agenda.

 

Você é a primeira mulher a liderar a

Beiersdorf. Qual é a sua visão sobre a evolução do empoderamento feminino no Brasil? Atua de alguma forma para fortalecê-lo?

Desde que cheguei à Beiersdorf meu foco tem sido fortalecer nossa cultura de cuidado e performance, começando pelas nossas pessoas, para que todas elas possam florescer, crescer e performar. Vejo uma evolução consistente da presença das mulheres em posições de destaque no Brasil, mas ainda com desafios relevantes na média e alta liderança. As mulheres estão cada vez mais qualificadas e ocupando funções-chave, porém, a jornada até os principais cargos de decisão ainda não é linear. Por isso, mais do que celebrar casos individuais, considero fundamental trabalhar para que os processos, as oportunidades de desenvolvimento e os critérios de promoção sejam claros e justos para todos, permitindo que o talento, independentemente de gênero, tenha condições reais de chegar ao topo.

 

Na Beiersdorf, avançamos de forma concreta: hoje, mais de 50% dos cargos de liderança no Brasil são ocupados por mulheres. Mais do que um indicador, isso é reflexo de uma agenda estruturada de diversidade e de decisões intencionais que tomamos todos os dias. Promovemos diálogos abertos, incentivamos a liderança feminina e fortalecemos iniciativas que ampliam a equidade dentro da organização.

 

Acredito que inovação, crescimento sustentável e impacto positivo só acontecem quando diferentes vozes têm espaço para decidir, influenciar e liderar. Ser a primeira mulher a ocupar essa cadeira me traz um senso de responsabilidade enorme: abrir portas, desenvolver outras mulheres e contribuir para que, no futuro, o fato de uma CEO ser mulher deixe de ser notícia e passe a ser algo natural.

 

Dois anos depois, qual é a avaliação que faz da sua gestão?

Focamos em fortalecer a cultura de cuidado com as pessoas – com a qual pessoalmente me identifico muito – deixando claro que esse cuidado caminha junto com a performance e não à parte dela. Dois anos depois, enxergo essa fase como um capítulo importante de uma construção em andamento.

 

Cuidar de pessoas e cuidar do negócio caminham juntos: quando as pessoas têm espaço para se desenvolver, ser ouvidas e exercer liderança com autonomia e de forma autêntica, o resultado aparece de forma mais sustentável. Na prática, isso significou aproximar ainda mais temas como saúde mental, desenvolvimento de lideranças e diversidade das decisões do dia a dia, das metas e das prioridades estratégicas do negócio.

 

Não buscamos perfeição, buscamos consistência. Cada ciclo, cada projeto e cada decisão é uma oportunidade de aprofundar essa cultura que une ambição e cuidado. Sigo olhando para a Beiersdorf Brasil com muito orgulho do que já foi construído e, ao mesmo tempo, com humildade e inquietude positiva, sabendo que ainda há muito espaço para evoluir na forma como unimos performance, pessoas e impacto de longo prazo.

 

Durante mais de 11 anos você trabalhou na Kimberly-Clark e, no meio do caminho, se tornou diretora de RH da empresa. Como se deu essa mudança?

A transição para RH foi um passo alinhado com a forma como eu sempre enxerguei negócios: por meio das pessoas. Ao longo dos anos na Kimberly-Clark, eu já participava ativamente de discussões sobre cultura, engajamento e desenvolvimento, sempre conectando decisões de negócio ao impacto que elas teriam nos times. Assumir a diretoria de Recursos Humanos foi um presente no qual pude reunir minha experiência em gestão com uma atuação mais direta na agenda de pessoas e cultura organizacional.

 

Estar à frente de RH foi uma das experiências mais ricas da minha carreira. Pude vivenciar, de dentro, como o RH é um parceiro estratégico na construção do futuro da companhia, influenciando sucessão, liderança, clima, diversidade e performance. Hoje, como CEO, levo isso comigo: não existe decisão relevante de negócio que não passe, de alguma forma, por gente. Ver Recursos Humanos e negócios como partes de uma mesma equação é um dos pilares da forma como lidero.

 

No ano passado, seu nome foi o grande destaque do prêmio CEOs Mais Admirados, concedido pela Gestão RH. O que reconhecimentos como esse representam na sua trajetória? De alguma forma, amplia suas responsabilidades na atuação como líder?

Reconhecimentos como esse são, antes de tudo, um reflexo do trabalho coletivo das equipes que lidero. Eles reforçam que estamos no caminho certo ao integrar estratégia de negócios, inovação e cuidado com as pessoas. Ao mesmo tempo, aumentam a responsabilidade de liderar com consciência, consistência, transparência e propósito, garantindo que cada decisão tenha impacto positivo para a companhia, para nossos colaboradores e para a sociedade.

 

Ser CEO, para mim, vai além de entregar números: é criar um ambiente em que as pessoas queiram estar, possam se desenvolver e se sintam parte de algo maior. É garantir condições para que cada pessoa floresça transformando seu potencial em performance, com clareza de expectativas, apoio das lideranças e um senso genuíno de pertencimento. Quando isso acontece, os resultados passam a ser consequência natural do trabalho de um time engajado.

 

Que competências um CEO precisa desenvolver para liderar em um cenário em que decisões cada vez mais são apoiadas por dados e algoritmos?

Eu me identifico muito com o racional dos 3 Cs: Curiosidade, Coragem e Conexões.

 

A curiosidade, em um mundo cada vez mais orientado por dados e algoritmos, é o que nos faz fazer as perguntas certas, aprender continuamente e praticar a humildade intelectual – admitir que não sabemos tudo e que podemos aprender com os dados, com a tecnologia e com as pessoas ao nosso redor.

 

A coragem é o que nos permite tomar decisões em cenários de incerteza, testar novos caminhos, rever modelos de negócio e, se necessário, mudar de rota à luz de novas evidências. Decidir com apoio de dados não elimina o risco, mas ajuda a qualificar a intuição; é preciso coragem para confiar nesse processo e, ao mesmo tempo, assumir a responsabilidade final pela decisão.

 

Por fim, as conexões são fundamentais para que tudo isso se traduza em resultado: conexões entre áreas, entre perfis diferentes, entre negócio, tecnologia e RH. Um CEO hoje precisa criar pontes – com times de dados, com especialistas em tecnologia, com parceiros externos – para transformar informação em ação, potencial em performance. No fim, acredito que curiosidade, coragem e conexões são competências essenciais para qualquer profissional, mas, para quem lidera na era dos algoritmos, elas se tornam inegociáveis.

 

Nos últimos tempos, a área de RH teve a atuação ampliada e vem ganhando mais participação no negócio. Como se dá a parceria CEO-RH na Beiersdorf e com o Juan Pablo Leymarie, líder da área?

Nossa parceria é enorme. Aqui, na Beiersdorf,

o RH participa das principais decisões estratégicas e das revisões de negócio, além de liderar as discussões sobre estrutura, cultura e sucessão de lideranças.

 

Trabalho muito próxima do Juan Pablo Leymarie, um profissional em quem confio profundamente e que traz um olhar consistente de gente e cultura para a mesa de negócios. Nós partimos de uma mesma premissa: são as pessoas que movem a organização, e o papel do RH é justamente criar as condições para que esse potencial se transforme em performance.

 

Isso acontece por meio de times engajados, de uma cultura com valores muito claros na prática e de lideranças preparadas para cuidar de pessoas e de resultados ao mesmo tempo. Aqui usamos a assinatura #vencendocomNossaGente, que não é apenas um slogan, mas um norte: ela orienta nossas escolhas diárias e reflete a forma como enxergamos a relação entre gente e negócio.

 

Fora do trabalho, quem é a Ana Bógus e o que você gosta de fazer?

Acredito que não existe a Ana “fora do trabalho”, somos um só: procuro viver com intenção e consciência no momento presente, cuidando de saúde mental, social e física como pilares de felicidade e alta performance.

 

Também não acredito em equilíbrio perfeito. O que existe, de fato, são prioridades e são elas que guiam as escolhas que faço todos os dias. Na prática, isso quer dizer decidir com clareza onde coloco minha energia: o tempo para fazer meus exercícios de manhã cedo, para colocar meu filho para dormir e viajar em família são coisas que adoro fazer e inegociáveis. Aprendi a me respeitar e a valorizar pausas intencionais. Pequenos descansos restauram a mente, regulam emoções e melhoram a qualidade das decisões. A pausa não diminui a nossa potência, ela a restaura.

 

 

 

Últimas matérias

Imagem da matéria ENTRE AS DEMANDAS DA ALTA LIDERANÇA E DOS COLABORADORES, A MÉDIA GESTÃO SE REINVENTA
ENTRE AS DEMANDAS DA ALTA LIDERANÇA E DOS COLABORADORES, A MÉDIA GESTÃO SE REINVENTA
Capa - 2026 - Edição 170
Com o mundo mais complexo, tecnológico e imprevisível, as soft skills em alta e a...
Ver MAIS
Imagem da matéria LIDERANÇA EM UMA CULTURA DE CUIDADO E PERFORMANCE
LIDERANÇA EM UMA CULTURA DE CUIDADO E PERFORMANCE
CEO em Foco - 2026 - Edição 170
“Não buscamos perfeição, buscamos consistência.” Para Ana Bógus, resultados...
Ver MAIS
Imagem da matéria A VIRADA DA OPERAÇÃO PARA O RH
A VIRADA DA OPERAÇÃO PARA O RH
RH em Foco - 2026 - Edição 170
Foi liderando equipes nas áreas de Logística, Produção e Projetos que Fernando...
Ver MAIS
Imagem da matéria Gente
Gente
Gente - 2026 - Edição 170
Veja quem movimentou o mercado
Ver MAIS

Matérias mais lidas

Imagem da matéria Gente
Gente
Gente - 2025 - Edição 169
Veja quem movimentou o mercado
Ver MAIS
Imagem da matéria Indicadores
Indicadores
Indicadores - 2025 - Edição 169
OS DESAFIOS DA NOVA GERAÇÃO DE LÍDERES A multinacional francesa Cegos...
Ver MAIS
Imagem da matéria Editorial
Editorial
Editorial - 2025 - Edição 169
Vivemos uma era em que a informação se tornou o ativo de grande valor nas...
Ver MAIS
Imagem da matéria Ergonomia mental: o futuro do trabalho sustentável
Ergonomia mental: o futuro do trabalho sustentável
Artigos - 2025 - Edição 169
O RH vive um momento decisivo. Nunca se falou tanto sobre saúde mental no trabalho...
Ver MAIS
 Teste GRÁTIS por 7 dias