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Revista Gestão RH - Edição 170
27/03/2026 - 00h00
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A FORÇA DO RH NA PREVENÇÃO DE ATAQUES E NA FORMAÇÃO DE UMA CULTURA SEGURA


Por Glauco Sampaio

Durante muito tempo, a cibersegurança foi tratada como um assunto restrito às equipes de TI. Mas a realidade atual mostra que os ataques digitais evoluíram e agora têm o comportamento humano como principal ponto de entrada. O elo mais frágil da cadeia de segurança não é o sistema, mas o usuário. Em um cenário em que a tecnologia avança mais rápido do que a conscientização, as pessoas se tornaram o novo perímetro de defesa – e isso coloca o setor de Recursos Humanos (RH) no centro dessa estratégia.

 

O RH ocupa uma posição única nas organizações. Ele não apenas administra dados pessoais e confidenciais, mas também molda a cultura corporativa, comunica valores e influencia diretamente o comportamento das equipes. Essa combinação de acesso à informação e poder de influência faz com que o departamento seja tanto um alvo de alto risco quanto um agente essencial de proteção.

 

Entre as ameaças mais recorrentes ao setor estão o vazamento de dados de colaboradores e candidatos a vagas de emprego, o phishing direcionado com uso de nomes internos e a manipulação de sistemas de folha de pagamento e benefícios. Em todos esses casos, a engenharia social – isto é, o uso de técnicas de persuasão para enganar pessoas – continua sendo uma das principais armas dos cibercriminosos. Quando um golpista se passa por alguém do próprio RH, pedindo documentos ou senhas, as chances de sucesso aumentam significativamente, já que esse setor tem legitimidade e contato direto com todos os níveis da empresa.

 

Mas o que pode trazer vulnerabilidades aos setores de RH? Processos seletivos que usam videoconferência e trocas frequentes de e-mails ampliam os pontos de exposição. Plataformas de videoconferências podem ser exploradas por criminosos, e caixas de entrada sobrecarregadas, repletas de currículos e mensagens, facilitam o descuido. Um clique em um anexo malicioso pode ser suficiente para que o invasor acesse a rede corporativa. Por isso, a segurança deve fazer parte do onboarding de cada novo colaborador, com orientações claras sobre boas práticas digitais, uso seguro de dispositivos e políticas de acesso a sistemas.

 

Comportamento e cultura

Apesar da crescente conscientização sobre o tema, as empresas ainda estão longe de uma maturidade ideal. Essa constatação reforça um movimento que o Gartner aponta como tendência global: a consolidação dos SBCPs – Security Behavior and Culture Programs (Programas de comportamento e cultura de segurança), iniciativas voltadas à mudança de comportamento e ao fortalecimento da cultura de segurança dentro das organizações. Segundo a consultoria, até 2027, metade dos CISOs [Chief Information Security Officer] de grandes empresas terão adotado práticas de design centradas no fator humano, com o objetivo de reduzir riscos associados ao comportamento dos colaboradores e aumentar a adesão aos controles de segurança.

 

Diante desse cenário, o RH tem uma função estratégica na inserção da segurança como parte da cultura corporativo das empresas. Isso começa pela educação contínua dos colaboradores, com treinamentos práticos e realistas sobre ameaças como phishing, ataques de senha e malware. Simulações de golpes, campanhas de comunicação interna e mensagens curtas de alerta ajudam a manter o tema vivo na rotina. Além disso, políticas claras sobre o uso de e-mails corporativos, criação de senhas e compartilhamento de arquivos devem ser formalizadas e reforçadas regularmente.

 

O RH pode transformar o aprendizado em algo participativo, estimulando a gamificação, reconhecendo boas práticas e premiando equipes que demonstram comportamento seguro. Quando a segurança é percebida como parte do cotidiano – e não apenas como uma exigência técnica – o comprometimento se amplia, e o risco de incidentes diminui.

 

Integrar a segurança à cultura organizacional é fundamental. Isso significa incluir o tema em campanhas de engajamento, avaliações de desempenho e programas de liderança. Assim, a proteção digital passa a ser compreendida como valor compartilhado, e não como responsabilidade isolada do time de TI. Ao fortalecer essa mentalidade, o RH ajuda a consolidar um ambiente de confiança, onde todos entendem seu papel e agem de forma preventiva.

 

A integração entre RH e tecnologia, portanto, é uma estratégia de defesa coletiva. Enquanto os especialistas em segurança monitoram ameaças e implementam controles técnicos, o RH traduz esse conhecimento em atitudes, fortalecendo o senso de responsabilidade comum. Essa cooperação é o que permite que a empresa reaja de forma ágil e coordenada diante de tentativas de ataque.

 

No fim das contas, proteger dados é proteger pessoas – e isso exige uma abordagem humana. A segurança da informação começa com a conscientização e se consolida quando se transforma em cultura. Cabe ao RH liderar essa mudança, tornando cada colaborador parte ativa da defesa e transformando o fator humano, antes visto como vulnerabilidade, em um dos maiores ativos de proteção da empresa.


Glauco Sampaio é cofundador e CEO da Beephish

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