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Revista Gestão RH - Edição 169
14/10/2025 - 10h00
Artigos

Quando o time trava o que os líderes podem aprender com o silêncio nas reuniões


Por Wanderley Cintra Jr.
Silêncio nem sempre é ausência de ideias. Muitas vezes, é excesso de receios. Em ambientes organizacionais, especialmente durante reuniões, o silêncio pode parecer inofensivo. Mas, com frequência, ele carrega mensagens importantes. Ignorá-las pode custar caro à saúde emocional e produtiva de um time.
 
Imagine uma sala de reunião em que o líder apresenta uma nova estratégia. Ele conclui com um clássico “O que vocês acham?”, esperando uma chuva de contribuições. Mas tudo o que recebe é um silêncio constrangedor. Ninguém discorda. Ninguém contribui. Para quem está à frente, pode soar como aprovação. Mas, na prática, pode ser desmotivação ou, pior ainda, medo de represálias.
 
O conceito de “silêncio organizacional” foi estudado por Elizabeth Morrison, professora da NYU Stern, nos Estados Unidos. Em sua pesquisa, Elizabeth revelou que, mesmo diante de problemas evidentes, muitos colaboradores optam por se calar como forma de autopreservação. Nesse cenário, o silêncio, quando recorrente, não é natural. É uma escolha.
 
É como um campo minado onde já houve explosões. Depois de pisar em um ponto errado uma vez, talvez ao sugerir uma ideia ignorada ou ouvir uma crítica pública, o time aprende que o melhor jeito de sobreviver é não se mover. O silêncio, nesse contexto, é uma estratégia de proteção.
 
A diversidade de ideias como diferencial
Estudos mostram que quando colocamos pessoas muito semelhantes para criar uma ideia, o grupo tende a concordar rapidamente, o que gera menos atrito, mas a qualidade do resultado não é tão boa. 
 
Por outro lado, ao reunir pessoas muito diferentes, o início do processo é marcado por maior atrito e discordâncias, mas o resultado é muito mais robusto, forte e seguro. Ou seja, a diversidade, mesmo que inicialmente desconfortável, é essencial para o crescimento real e a inovação dentro das equipes.
 
Esse contraste reforça que o silêncio pode esconder, também, uma resistência natural diante do desconforto provocado pelas diferenças, ou até um medo de se posicionar em meio a opiniões divergentes. Ignorar essa dinâmica pode comprometer a riqueza do debate e a qualidade das decisões.
 
Esse padrão tem consequências profundas. A pesquisa State of the Global Workplace 2023, da Gallup, empresa norte-americana de pesquisa de opinião, revelou que apenas 23% dos trabalhadores no mundo se sentem engajados no trabalho. Isso significa que a grande maioria está, em alguma medida, desconectada emocionalmente daquilo que faz. E onde há desengajamento, há menos participação, menos envolvimento – e mais silêncio.
 
Papel da liderança
Esse tipo de comportamento é construído por microexperiências que moldam o clima do grupo. Um comentário atravessado de um gestor. Uma falha exposta em público. Cada uma dessas situações envia uma mensagem sutil: “É melhor não arriscar”. E, ao longo do tempo, isso vira cultura.
 
É por isso que o papel da liderança precisa ir além da gestão de tarefas e metas. Um líder de verdade é menos orquestrador e mais regente de sensibilidade. Não basta saber conduzir uma reunião com eficiência, é preciso entender o que está sendo dito nos bastidores, nas entrelinhas e nos silêncios.
 
Uma reunião produtiva não é aquela em que todos concordam, mas aquela em que o desacordo é bem-vindo, a dúvida é legítima e o silêncio é, de fato, uma escolha e não uma prisão. Líderes atentos percebem quando um colaborador antes participativo começa a se retrair e agem, não para pressionar, mas para acolher.
 
É como um jardineiro atento. Ele percebe quando uma planta deixa de florescer, mesmo que ainda esteja verde. Às vezes, é preciso trocar o vaso, mudar o solo ou apenas garantir que o ambiente tenha luz suficiente para que ela volte a crescer. Isso vale para quem parou de falar: pode ser falta de espaço, de confiança ou de segurança psicológica.
 
Como criar um ambiente de confiança
Um dos primeiros passos pode ser mudar a forma como as reuniões acontecem. Reduzir o tempo de fala dos gestores, abrir espaço para escuta ativa, variar os formatos de participação e permitir que ideias sejam compartilhadas previamente, são práticas simples, mas poderosas.
 
Outra estratégia é investir em canais de escuta estruturados, como pesquisas de clima organizacional, caixas de sugestões anônimas e reuniões
one-on-one, nas quais os colaboradores se sentem mais à vontade para se expressar.
 
Os momentos fora da sala de reunião são igualmente importantes: como o líder reage ao erro de um colaborador? Como oferece feedback? Reconhece o esforço das pessoas publicamente ou apenas cobra resultados? Esses gestos, ainda que sutis, são os verdadeiros moldadores da cultura organizacional.
 
De maneira geral, é curioso notar que, em um mundo cada vez mais barulhento, com excesso de estímulos, o silêncio continue sendo um dos sinais mais potentes. É papel do líder ter sensibilidade para distinguir um do outro. Um time que silencia demais não está em paz. Está pedindo socorro. E quem ignora esse pedido, ainda que sussurrado, corre o risco de perder não só boas ideias, mas grandes talentos.
 
Wanderley Cintra Jr. é especializado em comportamento no ambiente de trabalho e possui mais de 20 anos de experiência em treinamento e desenvolvimento de pessoas
 

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